segunda-feira, 3 de dezembro de 2018


Eu sou muito cru
Tudo sempre igual
Já me cansei de mim
Preciso de mudança
Ou parar de escrever
E ir viver o raiar do dia
Talvez só escutar a brisa
Quem sabe me deitar
Outrora posso só calar
Mudar a direção do olhar
Comemorar as incertezas
Atravessar o claro vazio
Dançar os silêncios
Dizer não ao não
Ou simplesmente
Parar de fugir de mim.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018


Teus olhos tão céu
Meus olhos não estão
Tua boca de suave mel
Minha boca com fome de pão
Tuas mãos só ternura
Minhas mãos de dor de carvão
Tuas pernas de fortaleza
Minhas pernas correm em vão
Teu corpo abrigo amigo
Meu corpo de eterno cão
Teu coração de brigadeiro
Meu coração desalojado pelo não.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018


Percorro estradas asfaltadas com pedras pontudas
Correndo sempre na direção da tragédia
Meu lar dos últimos invernos
E a música da morte preenche todo o peito
Mas como beijar aquilo que se repele
Estando com as mãos atadas nas costas
E a cabeça presa nos grilhões da dor

Vejo ao longe fagulha de algo que nasceu
Para fora de onde deveria estar
Mas não me permite lhe tocar
Por que me consideras tão suspeito
Ou até mesmo já condenado a não alcançar
Aquilo que um dia já esteve ao redor
E meus ouvidos puderam escutar

O que devo fazer para não perecer assim
Cercado por mim mesmo e nada mais
Sem que a luz queime meus olhos
E que a dança prometida para mim
Não se desfaça num vulto qualquer
Do voo dos pombos sobre as igrejas
Construídas em meu peito vazio

segunda-feira, 29 de outubro de 2018


Estou cansado desse céu caindo
Água que afunda o homem morto
Nessa terra deserta de brincar
Sinto o vento empurrando
Minha cabeça contra o muro
Do branco que separa o lar
O ar tóxico asfixiando as salas
Invisíveis páginas de sangue
Sobre mesas de calcário frio
Sonhos que resistem o tempo
Bagunça do quarto intocável
O berço sem suas cobertas
Correntes velhas a nos saudar
Dos navios que balançam
E nos jogam para deitar no mar.

sábado, 27 de outubro de 2018


Ah se o tempo pudesse voltar
Onde nenhum oceano tivesse secado
Onde nenhuma luz tivesse se apagado
Onde nenhum pássaro tivesse se silenciado

Ah se o tempo pudesse retroceder
Para que nos deixassem nos abraçarmos
Para que nos permitissem olhar um pro outro
Para que nos consentissem andarmos de mãos dadas

Ah se o tempo pudesse recuar
E eu ainda pudesse andar descalço
E eu ainda sentisse a suave brisa sobre mim
E eu ainda chorasse somente de alegria por todos nós

quarta-feira, 10 de outubro de 2018


Eu serei a resistência
Aquela pedra na sua vitrine
Já suja de sangue coagulado
Meu sangue que queima
Eu serei aquele duro
Que não se enverga ao vento
Carregado de ar pútrido
Absorvido em seus pulmões
Eu serei o furacão
Que lhe incomodará
Arrancarei seu telhado de lodo
E lhe despirei da hipocrisia
Eu serei o náufrago
No meio do mangue
Inteiro e atento
A caçar os que andam pra trás
Eu serei teu peito
Quando precisares chorar
Pelos entes perdidos
Que não quis escutar
Eu serei a estrela
Que no dia mais escuro
Irá iluminar teu caminho
Mesmo tu estando afundado no mar.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018



Eu sangrei pés e mãos
Eu me acorrentei numa prisão
Eu deitei pelo chão
Eu deixei de comer do pão
Eu permiti sua voz rouca
Eu segurei meu desespero
Eu fiquei com os olhos molhados
E você pisava nos tapetes
Dormia sobre os lençóis
Navegava pelas ilhas desertas
Se alimentava dos corvos
Ria das pálidas rosas vermelhas
Cortava as cores do arco íris
Gastava toda a madeira de lei
Pendurava as pedras no teu pescoço
Mas eu levantei meu peito
E numa só voz gritei
Eu sou o teu irmão
Mas você não é o meu.