segunda-feira, 19 de agosto de 2019


Mais atento
Eu tento
E erro

quarta-feira, 14 de agosto de 2019


Sou um quieto animal
Escondido no fundo da minha jaula
Paredes e grades que eu mesmo construí
Uso máscara para esconder olheiras
Meu sono é de um frio só
Não me acalmo sonhando no céu
A claridade me fere demais
Pari a sombra pela qual caminho
Sigo reto com pernas bambas
Segui a trilha da montanha
Meus pés cavam buracos
Me atiro livre ao mar
Nunca deixo as ondas me arrastarem
Volto para areia, não aprendi a me afogar
No meu relógio só funcionam os minutos
O tempo lá fora é muito veloz
Dois, três, quatro cavalos me atropelam
Desço a ladeira de costas
Meu mármore é de corpo intacto
São Jorge me protege dos olhares
Repito histórias, conheço poucas palavras
Placas de não estacione me cercam
Minha vida escrita no receituário
E a morte, ah, a morte
Essa já me chegou a tempos.

sexta-feira, 26 de julho de 2019


Vasos de flores na porta de entrada
A corda envolta do pescoço
São o invisível gritando pelos cantos
Eles querem nos colocar em rodapés
Escrevemos a nossa munição
Gravando nos muros dos guetos
Senzala não se fecha mais
Mesmo que neguem nosso próprio pão
Andamos de mãos dadas atadas
Pés de barro cobrando a razão
Arco-íris pra orquestra aplaudir
Panos rosas vão cobrir a enxada
É tanto sangue pelo chão
Não cabe mais caixão nos jornais
Tiras de algodão sobre os sinais
Carreguem todos os nossos ais
Somos bambus na tempestade
E vocês vão engolir os ventos da mata
Chegou nossa hora de afogar
Gangorra só leva pro alto
Descemos do navio pra lutar
Uma bandeira só vai tremular
É nossa hora de conquistar.

terça-feira, 28 de maio de 2019


As nuvens brancas no céu
As paredes brancas do museu
As casas de muros brancos com cacos de vidro
As folhas brancas escritas
As telas brancas que recebem a tinta
O pão branco que nos alimenta
O prato de louça branca servido a mesa
O iceberg que distraí navios
A casca do ovo branco que trouxe vida
O vestido de cauda da noiva no altar
A luz que inunda a sala de estar
O gesso que conserta seu corpo torto
A rendição em uma bandeira
Os ossos espalhados no caixão
A idade que os cabelos carregam
A camisa branca do negro, manchada de vermelho.

terça-feira, 21 de maio de 2019


Se cheguei até aqui
Por que devo retornar?
Venha logo senhor dos sonhos
Me devore noite adentro
Com suas pernas altas
E suas mãos amarelas felpudas
Me abrace até me quebrar
Jogue o que sobrar para cima
Faça seus jogos sujos
Deite seu corpo no meu lugar
Agora é hora de rastejar
Ouvir o temor da teia de aranha
Imaginar o voo rasteiro do besouro
Fechar minha boca mordida
Pesadelos assombram o lençol
Uivos sobre os travesseiros
Minha condenação a galope.

sexta-feira, 17 de maio de 2019


Eu escrevo sobre águas e pérolas
Que se confundem com cristais
Dos seus olhos mais azuis
Que me congelam os pés
No fundo da dúvida
De não saber te encontrar.
Mesmo a deriva do teu corpo
Sinto o cheiro de chuva
Que passa pelo teu sexo
Ao encontro do aço maleável
Que toma suas mãos
Desesperadamente ásperas.
Conduz tua respiração corroída
Pelos canos enferrujados
Até a superfície da dor
Tire a capa que me protege
Veja meu rosto sangrar
E diga que foi tarde demais.

sábado, 11 de maio de 2019


Para onde irei
Qual rio devo seguir
Todos levam ao oceano
Mas não quero me afogar
Nadar contra não é opção
A correnteza é forte demais
Nenhuma margem é segura
A água está gelada
Turva-se diante de mim
Os peixes se recolhem
Então eu abro meu peito
E deixo o rio correr dentro de mim.