quarta-feira, 7 de junho de 2017


Eu pensei que me via por aí
Que as cores me cobriam
Que os sonhos eram meus
Que nenhuma nuvem me encarava
Eu imaginava o próximo respiro
Que todo o mar era verde
Que os pecados se dissolviam
Que a poeira nunca iria chegar
Eu achava que o dia era longo
Que a subida era situante
Que as horas sussurravam
Que o espinho adormecia
Então agora
Eu fico apenas olhando
Numa direção lunar
Eu fico apenas olhando
Por onde vou me deitar
Eu fico apenas olhando
Todos os sons do ar,

domingo, 4 de junho de 2017


Todo o silêncio depois da chuva
Carrega aquilo que escondi
Malas desarrumadas pelo chão
Uma garrafa de vinho
Meus bolsos todos vazios
A luz neon piscando
Da janela embaçada
Pela fumaça do último cigarro
As gotas seguem deslizando
Atingindo a calçada
Da rua vazia e solidária
O canto escuro do quarto
A sombra da cama desarrumada
Cortinas encardidas dançam
Pelo ar da noite
A lua rompendo a escuridão
Meu paletó desabotoado
Um comprimido para dor
Flores mortas no jarro de plástico
O livro marcado na página final.

sábado, 1 de abril de 2017


De quantas vezes nós fomos e voltamos
O espaço aberto sem se preencher
E nada costurava aquela ardente ferida
Nossos olhos olhavam sem poder ver
O ar rarefeito desse tempo insólito
Não havia mais nada mais para endurecer
Nenhum caminho era mais desgastante
Do que aquele que pegamos sem ter porquê

Vamos deixar pra lá
Nada mais voltará a ser
Deixemos o mundo correr
Todas as nossas mãos
Apontam numa direção
Sem nenhuma razão
Vamos embora
Pois o mundo
Está na contramão

Já não queremos saber do amor
Só sabemos que é amargo e incolor
E vez ou outra não te traz calor
Faz a boca secar, o estômago revirar
Te corta os pés de uma só vez
Você só aprende a rastejar
A escuridão é o seu lugar
Aceite sem hesitar

Só nos resta a miséria
De ser o que somos
Abrace e beije sua condição
Nada é tão ruim
Do que viver uma ilusão
Siga em frente
Liga o foda-se
Deixe tudo para trás

quarta-feira, 8 de março de 2017


Os anos passam, mas ainda sou uma maça a ser colhida
Ventos sopram e me pego a balançar neste galho torto
Alguns pássaros sempre querem me bicar as costas
Por vezes azedo, me machucam as vezes sem me tocar
Meu vermelho não é só de paixão torrencial
É a cor da lágrima da semente que não deixaram brotar
Algumas ocasiões minha pele se confundiu com a da laranja
Minha polpa resiste mesmo com todas as manchas
Pois ainda sou o fruto da sabedoria e da força
Ainda eu sou a que mata a fome das gargantas fechadas
A que morre para ver teu sorriso mais bonito
A que está contida e que contém toda a vida
Sou a luta do vento contra folha amarelada
Sou a vencedora de todas as guerras
Sou a que nunca será vencida, pois sou todas nós.

domingo, 5 de março de 2017


Eu quero que o espelho se reflita em mim
Que as maças brotem aos meus pés
E que a escuridão se encerre em minha mão

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017


Quero me vestir do desconhecido
Esquecer deste falso real vívido
Apagar minha existência inebriada
Andar por entre as covas vorazes
Dos dejetos que a sociedade empurra para fora
Para ser o escárnio vivo alado
Lamber os pratos de louça branca
Lambuzar do fétido sabor das agruras
Ser o vil torpe olhos das rejeições
A diferença entre o espelho e o reflexo
Ser aquilo que nos impede de ser
Ser o medo esquálido e a tragédia prometida
Ser aquilo que se pode sangrar.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016


Tinha muita tinta e coragem
Andava em qualquer direção
Não levava muita coisa
E nem tinha seus pés no chão
Apenas ideias gestuais
Que coloriam as nuvens
E talvez colorissem também
A nossa imaginação.