sábado, 21 de outubro de 2017


Eu sou a cor amarela da dor
Aquele que amarga ao final
O que nunca termina o respirar
Aquele que fica do lado oposto
O que não sente as brisas
Eu sou o que falta em mim
Aquilo que não fica vivo
O que resta do olhar
Aquilo que procura se perder
O que caminha descalço
Eu sou o que não deveria ter sido

segunda-feira, 2 de outubro de 2017


Não há nenhum lugar para onde fugir
Aonde quer que vá, será sempre agridoce
Eles não vão te aprisionar em palavras
Nenhuma peça se encaixa dentro de ti
É preciso descobrir o que te faz um
Nenhum lar será teu até se perder
O espaço aberto não se precisa preencher
Só tem que se desenhar em múltiplas cores
Deixa o ar entrar em plenos pulmões
E sua casa vai nascer dentro de ti
O batom vermelho não vai secar
E todas as vestimentas poderá tirar
E só tua pele carregará quem és

segunda-feira, 25 de setembro de 2017


Procurei, sem nunca conseguir encontrar
Em nenhum deserto, em nenhum bar,
Aquele que eu pude um dia amar
Todos os outros já morreram no mar
Não há mais cheiro vagando pelo ar
A música na vitrola parou de tocar
E a vida em nuvem parou de rodopiar
Minha alma agora só quer descansar
Mas os letreiros de neon querem brilhar
E meus olhos não conseguem fechar
Minhas mãos tremem fazendo brotar
O líquido daquele louco amar
Que em flor da lápide fez nosso morar
E não me faz parar de sangrar
Enquanto sua boca não mais tocar

sexta-feira, 22 de setembro de 2017


Eu não vou querer ser flor de acácia
Onde não há deserto para regar
Onde o céu permanece escuro
Eu não vou tentar voar para longe
Enquanto os galhos forem cortados
Enquanto o sol insiste em cegar
Eu não vou conseguir parar de andar
Já que a noite insiste em ficar
Já que todos resolveram abortar
Eu não vou deixar de amar
A quem eu possa segurar nos braços
A quem eu possa ser dentro de ti
Eu não vou parar de sangrar
Para que se possa me olhar sem temor
Para que se possa me calar em dor

quarta-feira, 20 de setembro de 2017


As balas perdidas ferem a poesia do dia
As bocas ressecadas são mordidas pela violência
As mãos em prece seguram armas de preconceito
Os dentes brancos se sujam do vermelho escuro
Os jogos torcem pelas arquibancadas vazias
Os pés correm em gritaria pelas vielas marrons
As telas refletem os amores perdidos no estômago
O tempo retrocede com foguetes de inverdades
Os rostos não se enrubescem pelo ódio
Os olhos revirados miram para fora do transtorno
As crianças correm dos seus falos paternos
O coração insiste em petrificar tudo a sua volta
E vamos lutando contra todos os homens de bem

quinta-feira, 31 de agosto de 2017


Eu não vou dar ao teu corpo o direito de reclamar
Das poucas vezes que me ausentei por tua própria causa
E nem deixarei que façam nada para me afastar ainda mais
Porque a música que emana deste encontro enrubesce os demais
E deixe que os outros façam o que quiserem sobre nós
Não me importa as geleiras que eles derretem
Nem o sol que eles produzem para queimar nossos olhos
Só quero rodopiar teu corpo pela relva molhada
E que eles gritem todas as palavras violentas
E que cerem os punhos sobre os jornais velhos
Deixa somente que eu crave meus dentes na sua carne
E que eles sejam os vociferadores da própria sujeira
Nos dando adjetivos que eles sempre usaram para se esconder
E que saboreiem os deleites da inveja luxuriante
Enquanto nossos corpos se mesclam vorazmente
Podem cuspir fora nosso dentes e unhas
E quebrarem todos nossos ossos já deformados
Porque nós estaremos gozando sobre o corpo um do outro
Deitados na bandeira coberta do sangue da luta diária.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017


Todos com os olhos fechados
Fingindo não ver sua própria execução
E a mulher de preto
Costura sua face de volta
Filmes de guerra passando
Com pássaros de bico roxos
Marcha de bons homens
Com sangue sagrado nas mãos
As camas todas arrumadas
Para as cinzas se deitarem
Um grito ecoando pelo ar
a dor da liberdade que não vai chegar