segunda-feira, 14 de agosto de 2017


Todos com os olhos fechados
Fingindo não ver sua própria execução
E a mulher de preto
Costura sua face de volta
Filmes de guerra passando
Com pássaros de bico roxos
Marcha de bons homens
Com sangue sagrado nas mãos
As camas todas arrumadas
Para as cinzas se deitarem
Um grito ecoando pelo ar
a dor da liberdade que não vai chegar

sábado, 12 de agosto de 2017


O mundo é grande e não está brincando
E as massas estão chorando
Políticos de evaporadas emoções
Viúvas parindo dores fora do tempo
Cada um vivendo correntes de pedra
E a máquina construindo horrores
Tempo vermelho escorrendo pelas valas
Homens cortando seus próprios pés
Signos mandando em nossos sonhos
Dois buracos em nossos olhos
Os cheiros das casas de bonecas incadem as ruas
Fetos crescidos em granjas brancas
Cruzes que estancam os batimentos
Deuses que vendem seus súditos
Cinzas que caminham para o espaço
Só falta duas doses de cicuta.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017


Tudo que em mim é mais amargo
Vira sangue, éter e álcool
Dissolvido pela noite áspera
Que carrego dentro de mim
E as vezes tudo fica muito pesado
Nem meus ombros tortos
E nem minha boca fechada
Suportam o peso do ser
Nada sobra para ser dividido
Já se foi aquilo que se vê
Algumas coisas que se tocam
E outras que nunca ouvi
Quase nada é lixo encardido
Memórias da velhice
O coração roto
E a perda dos dias.

quinta-feira, 20 de julho de 2017


Como preencher o vazio de tudo que há
Como ver estrelas se a luz te faz cegar
Como sentir o chão sem poder andar
Como esquecer se não consegue lembrar
Como atingir você se você não está
Como responder se não há o que falar
Como escurecer sem nada a apagar
Como morrer se a vida já passou sem se notar

quarta-feira, 19 de julho de 2017


E se você ficasse catando estrelas
Para depois costurá-las num pano branco
E percebesse que o mesmo pano costurado
Fosse sua única vestimenta dos dias
Como vocês se sentiria ao ver seus pés
Calçando as poeiras das casas que morou
E descobrisse que estas casas abandonadas
Ainda são sua fortaleza anti solidão
E se por um momento qualquer
Ao olhar por sobre a montanha mais alta
Você ainda avistasse todo o ontem
E não reconhecesse nada mais
O que faria quando tuas mãos
Cerradas pelo frio do tempo
Fossem abertas e você tocasse
Aquilo que nunca pode sentir.

sexta-feira, 14 de julho de 2017


Tenho saudades de tudo aquilo que não foi
Da música inacabada que tocava de tarde
Do sentimento inquietante que não se traduz
Das belas manhãs que eu via ao dormir
Do silêncio do cair da noite fria e distante
Da hóstia amarga que eu não engolia
Da distância construída entre nós dois.

Eu faço as malas languidamente
O sol perambula lá fora
Árvores se dobram em silêncio
Pássaros cantam a distância
As cortinas escondem as janelas
As paredes se descascam em branco
Sombras procuram as poeiras dos quadros
Caixas se empilham pela sala
Me equilibro num adeus.