domingo, 11 de fevereiro de 2018


Há de sentir o peso dos mortos
Em cada pedra que falta
No silêncio
No barulho do vento
Em cada grama que cresce
Há de sentir o peso dos mortos
Sobre os nossos ossos
Debaixo de cada céu
Dentro de cada árvore
Há de sentir o peso dos mortos
Onde não há mais peso algum
Só a culpa e vergonha
Há de sentir o peso dos mortos
Pois também estamos mortos.

Do que se faz o tempo
Tempo presente, sobrevivo
Tempo ausente, me esqueço
Ou me recordo
Daquilo eu esqueci
Tempo futuro, não há tempo
Estamos sós
Sobre o tempo
Sobre o mundo
Sobre o tudo e o nada
O tempo passa
Ultrapassemos o tempo
O tempo para
Quando não há nenhum vento
O tempo não se perde
Mas nos perdemos no tempo
Para nunca mais
A gente se desfaz no tempo
Mas o tempo
O que é o tempo
Acabou-se o tempo.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018


Já não cabia mais em minhas mãos
a ironia do dia a dia,
então as guardei no bolso de trás
da desbotada calça jeans,
junto com alguns pedaços
do meu coração

terça-feira, 2 de janeiro de 2018


Que o céu caia sobre mim
E atravesse meu corpo antissocial
Rasgue minhas vestes vermelhas
Quebre meu salto mais alto
Borre toda minha maquiagem
Rache minhas unhas de porcelana
Queime minha peruca azul
Arranque minhas entranhas
Destrua tudo que achar sobre mim
Mas não vai me tirar minha resistência.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017


É laje
É favela
É capoeira
É samba
É hip hop
É funk de montão
É aquele que vive no gueto
É o que desce pro asfalto
É o que solta e segura o rojão
É o que mexe o bumbum
É o que vai até o chão
É o que aparece nos jornais
É o que é confundido
É o que querem esconder
É o que luta a cada minuto
É o que desvia de balas e pedras
É o Pelourinho
É gingado
É força
É arte
É amor
É Zumbi
É Dandara
É Mãe Menininha
É você
Sou eu
Somos nós

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017


Tesoura que corta nuvens
Ponta que acelera as horas
Faca que derrete neve
Olhos que vislumbram sombras
Sonhos que mostram medos
Tinta que encobre tons
Pedra que segura água
Chão que se encerra em pé
Mão que fecha a respiração
Dor que libertam lágrimas
Discos que tocam o futuro
Papel que derruba árvore
Mapa que revela o espelho
Boca que morde estrelas
Sexo que absolve a carne

A tinta se soltou da parede
Revelou camadas de desapego
Os pedaços caídos no chão
Formaram lindas desilusões brancas
Os tijolos apareceram lentamente
Contando para quase todos
Segredos cimentados em desejos
E desbotados pelo tempo.