domingo, 10 de fevereiro de 2019


É na mudança de postura que a gente ganha altura
É mudando o pensamento que criamos nosso momento
É trabalhando o argumento que a gente faz o movimento
É no embate dos nossos corpos que surge a união
E é na dança dos olhares que findamos a solidão.
É na palma da mão que fazemos um caminho são
É na lágrima derramada que se constrói a nação
É no grito dos aflitos que brota a afeição
É no gesto intocado que nasce a paixão
E é encenando a loucura que desabotoamos o caixão.
É na luta do dia a dia que aguardamos pela paz
É no compasso do amor que entramos no mesmo vagão
É no som da euforia que saciamos o coração
É na vertigem da canção que nos damos as mãos
E é na busca do perdão que tocamos o chão.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018


Me diga algo que me deixe forte
Que traga a luz pro meus olhos azuis
Que aspire a fumaça dos dias cinzas
Que transforme o calor das minhas mãos
Meus medos mais febris foram em vão
Porque nada que fizestes fez chover
E só nos restou a pirataria do amor
Sem som, sem luz, sem dor.

Um beijo e isso é tudo
Assim nos reconhecemos
Depois nossos corpos abertos
Se tocam contra a parede do mundo
Um barulho de ferro oxidado
Entrando cambaleando pela janela aberta
Já é dia em outro país
E aqui nunca amanhece no jardim
Tapetes de feltro se deitam
Rasgamos todos estranhamente
Dor de um parto ou outro
Não há silêncio através de nós
Doravante não haverá alma alguma
Só restará o que sobrou da janta
Cubram-se com os espantalhos
Enquanto nós seremos o homem de lata
Corram para as montanhas de neve
Seremos todos pedra de sal.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018


Eu sou muito cru
Tudo sempre igual
Já me cansei de mim
Preciso de mudança
Ou parar de escrever
E ir viver o raiar do dia
Talvez só escutar a brisa
Quem sabe me deitar
Outrora posso só calar
Mudar a direção do olhar
Comemorar as incertezas
Atravessar o claro vazio
Dançar os silêncios
Dizer não ao não
Ou simplesmente
Parar de fugir de mim.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018


Teus olhos tão céu
Meus olhos não estão
Tua boca de suave mel
Minha boca com fome de pão
Tuas mãos só ternura
Minhas mãos de dor de carvão
Tuas pernas de fortaleza
Minhas pernas correm em vão
Teu corpo abrigo amigo
Meu corpo de eterno cão
Teu coração de brigadeiro
Meu coração desalojado pelo não.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018


Percorro estradas asfaltadas com pedras pontudas
Correndo sempre na direção da tragédia
Meu lar dos últimos invernos
E a música da morte preenche todo o peito
Mas como beijar aquilo que se repele
Estando com as mãos atadas nas costas
E a cabeça presa nos grilhões da dor

Vejo ao longe fagulha de algo que nasceu
Para fora de onde deveria estar
Mas não me permite lhe tocar
Por que me consideras tão suspeito
Ou até mesmo já condenado a não alcançar
Aquilo que um dia já esteve ao redor
E meus ouvidos puderam escutar

O que devo fazer para não perecer assim
Cercado por mim mesmo e nada mais
Sem que a luz queime meus olhos
E que a dança prometida para mim
Não se desfaça num vulto qualquer
Do voo dos pombos sobre as igrejas
Construídas em meu peito vazio

segunda-feira, 29 de outubro de 2018


Estou cansado desse céu caindo
Água que afunda o homem morto
Nessa terra deserta de brincar
Sinto o vento empurrando
Minha cabeça contra o muro
Do branco que separa o lar
O ar tóxico asfixiando as salas
Invisíveis páginas de sangue
Sobre mesas de calcário frio
Sonhos que resistem o tempo
Bagunça do quarto intocável
O berço sem suas cobertas
Correntes velhas a nos saudar
Dos navios que balançam
E nos jogam para deitar no mar.