sábado, 29 de novembro de 2014


Eu só preciso de um poema espremido
de água e alguns pedaços de pão
não quero nada mais necessário
nem cinzas e nem rosa em botão
nada que cabe em meus olhos
ou suporte a minha respiração
que transforme a noite
ou que pulse sobre minha mão
que ilumine a avenida e os becos
e que acabe me trazendo a razão
me dê só um papel dormido
que eu rego essa solidão.

domingo, 2 de novembro de 2014


Não há sangue no chão
os carros passam
e não ocupam a contramão
tudo ruido ao olhar pra trás
está vazio teu colchão
os olhos do gato
fechados pela escuridão
pedaços de bolo e velas
entre os tijolos da construção
nenhuma mão segurando o pão
sem mar, sem sal, sem gostar
ferindo a pele da solidão
linhas vazias pra configurar
vago pedaço de coração
sonho bolorento desfeito
moscas sorvendo a desilusão.

sábado, 23 de agosto de 2014


Eu rio,
rio de mim mesmo,
rio sem pensar
que o oceano
no qual navego,
é meu próprio
mar de desalento.

domingo, 3 de agosto de 2014


São dois olhos e a eternidade
é um rio e nenhum peixe
são várias montanhas e nenhum passo
é um rosto e um vazio.
São cinco sentidos e nenhuma alma
é um sol e um afogamento
são três estrelas e uma janela
é uma cama e todas as cápsulas.
São todos e uma perda
é um buraco e um verme
são mil sons e um eco
é um fim e ponto final.

terça-feira, 22 de julho de 2014


Eu não sabia que o fim era assim
Sinfonia sem sol em dó
Com o vento batendo na janela
O café frio na xícara de porcelana
E as abelhas voando baixo
Por sobre as flores de plástico
Eu não sabia que tudo terminava assim
Sobre um veludo dourado puído
Por entre as janelas fechadas
Sem cor e a brisa da manhã
E os pássaros cantando
A canção da que ninguém canta
Eu não sabia que a escuridão era assim
Tão redonda e vermelha
Com as lagartas enclausuradas
As estrelas mergulhando no oceano
E um cão latindo ao longe
Como se chamasse sua guia perdida.

sábado, 31 de maio de 2014


Aquele homem morreu
Para mim
Que sou cheio de defeitos
Ele era eu.
Tanto que ele nem me reconheceu
Mesmo diante
Do espelho que se deu.
Pro meu espanto
Tudo somente aconteceu
Quando ele e eu
Não éramos mais
Somente ele e eu.

segunda-feira, 26 de maio de 2014


Não há reflexo no espelho
nem olhos que enxerguem
para onde vão meus sonhos

O poema do óbvio
se instala em meus pulmões
preenchendo-o de algodão

Mãos de garra fria
arrepiam toda a flor
quando tocam suavemente
todo o teu torpor

Turva a acre neblina
depois de tantos arrepios
sussurram de longe
e me deixa febril.