quinta-feira, 28 de julho de 2016


Me interesso por melodias engarrafadas
Adocicadas e misturadas a cicuta
Difíceis de engolir a seco
Que se tomam lentamente
Durante os invernos vindouros
Onde nenhuma criança as escutará
E nenhum leão as esquecerá.
Gosto do barulho dos metais se retorcendo
Tão delicadamente gentis
Sorvendo as nuvens pueris
Presas as minhas costas
Forjadas de pó e acetato
Em longos dias de deserto.
Amo os foguetes da vergonha
Presos no espaço entre as palavras
Onde a luz se desfaz
Tensa e fragilizada de futuro
E onde corre a noite sem fim.

domingo, 24 de julho de 2016


Ontem não voltei pra casa
Preferi seguir adiante
Com os bolsos e lapela vazios
Sem ao menos um trocado
Fazendo diversas paradas
Enterrando meus pés na lama
Queimando meu couro no tempo
Hoje eu retorno mais alto
Com os mesmos bolsos
Ainda sem nenhum trocado
Com meus pés cheios de calos
E meu corpo mais rachado
Amanhã vou embora de novo
Com os bolsos rachados
Trocando só meus sapatos
Com a pele alvejada
E um pouco mais pardo.

sábado, 23 de abril de 2016


Não há nada que eu possa citar
Tampouco que me faça escutar
Entre os tapetes da sala vazia
Só um beijo idiota de bar.
Meu corpo chora pulsares
E minhas mãos amassam
Um bilhete que ferre cortando,
Mas não consigo chorar.
Portas e janelas abertas
Escuro, só depois de dobrar
A esquina sussurrante
No caminho do mar.
As ondas batendo no peito
Nada para me refrescar
Sinos rachados no navio
Parado no meu olhar.
Para que vigiar estrelas
Se o tempo passou
E me distraio num relance
De uma falta de ar.

domingo, 3 de abril de 2016


Da última vez que me amei
Não era onze de setembro
Era mais pro fim de mês
Numa tarde de céu blasè
Estava sentado no sofá
Contando alguns trocados
Pro ônibus que eu iria pegar
Entre um ponto e outro
Desceu aquele amor
Fatigado pelos solavancos
Do coletivo desilusão.

sábado, 26 de dezembro de 2015


E o ar se esvai
É o último suspiro da noite
Fantasmas de almas amargas se levantam
Nunca viram o doce luar
Chorar
Muitos dos meus anos foram assim
Por muito tempo
Eu nunca acordei do sonho
Que eu tive
Mas você
Me tirou da letargia
Da letargia
Dos meus anos de prata
E eu sou
Eu sou aquele
Que agora respira
Sem parar, num só sopro
Que se enche
De puro ar
Mas nada assim vai durar
Nada vai segurar
O resto da respiração
E o tempo se esgota
O sonho de acordar
É tão pesado
Não vou suportar
Mas você me enxerga
Dentro destes vultos
Gelados
E tudo volta rápido
A noite, o luar
Onde meus sonhos
Não se vão

sábado, 28 de novembro de 2015


Minha poesia é dura, seca
não faz espuma
causa rachaduras.
Não anda em bando
não preenche página de livro
faz a dor do papel branco.
Minha poesia não é altruísta
não fala nada pra você
ela é muda, egoísta e bela.
Não se faz em linhas pautadas
se arma no concreto das calçadas
e destrói meus sonhos.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015


Um tiro, uma vírgula
Um cano, uma incógnita
Uma arma, minha mão suada
Uma vida, um espaço em branco
Nenhuma sombra paralela
Nenhum olhar em sua direção
Duas porções de moedas
Vago corpo deitado no chão.