sexta-feira, 17 de maio de 2019

Eu escrevo sobre águas e pérolas
Que se confundem com cristais
Dos seus olhos mais azuis
Que me congelam os pés
No fundo da dúvida
De não saber te encontrar.
Mesmo a deriva do teu corpo
Sinto o cheiro de chuva
Que passa pelo teu sexo
Ao encontro do aço maleável
Que toma suas mãos
Desesperadamente ásperas.
Conduz tua respiração corroída
Pelos canos enferrujados
Até a superfície da dor
Tire a capa que me protege
Veja meu rosto sangrar
E diga que foi tarde demais.

sábado, 11 de maio de 2019

Para onde irei
Qual rio devo seguir
Todos levam ao oceano
Mas não quero me afogar
Nadar contra não é opção
A correnteza é forte demais
Nenhuma margem é segura
A água está gelada
Turva-se diante de mim
Os peixes se recolhem
Então eu abro meu peito
E deixo o rio correr dentro de mim.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

O que não somos, nem o tempo dirá
Só restará aquilo que você guardar
Dentro da caixa que esconde os anéis
Dos dedos gastos no chão da noite
E nunca a vida lhe olhará
Como aquele que estava cansado
Sobretudo na sua recusa a levantar
E olhar para dentro do inverno
E os nomes que tu não dizes
Lhe acompanharão pelo mar
Avisando-o sobre o passado
Que viveu por cima de todos nós
E agora o que restará
Só os fantasmas da esperança
De saber que o fim não veio
E o buraco ainda está aberto.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

É na mudança de postura que a gente ganha altura
É mudando o pensamento que criamos nosso momento
É trabalhando o argumento que a gente faz o movimento
É no embate dos nossos corpos que surge a união
E é na dança dos olhares que findamos a solidão.
É na palma da mão que fazemos um caminho são
É na lágrima derramada que se constrói a nação
É no grito dos aflitos que brota a afeição
É no gesto intocado que nasce a paixão
E é encenando a loucura que desabotoamos o caixão.
É na luta do dia a dia que aguardamos pela paz
É no compasso do amor que entramos no mesmo vagão
É no som da euforia que saciamos o coração
É na vertigem da canção que nos damos as mãos
E é na busca do perdão que tocamos o chão.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Me diga algo que me deixe forte
Que traga a luz pro meus olhos azuis
Que aspire a fumaça dos dias cinzas
Que transforme o calor das minhas mãos
Meus medos mais febris foram em vão
Porque nada que fizestes fez chover
E só nos restou a pirataria do amor
Sem som, sem luz, sem dor.
Um beijo e isso é tudo
Assim nos reconhecemos
Depois nossos corpos abertos
Se tocam contra a parede do mundo
Um barulho de ferro oxidado
Entrando cambaleando pela janela aberta
Já é dia em outro país
E aqui nunca amanhece no jardim
Tapetes de feltro se deitam
Rasgamos todos estranhamente
Dor de um parto ou outro
Não há silêncio através de nós
Doravante não haverá alma alguma
Só restará o que sobrou da janta
Cubram-se com os espantalhos
Enquanto nós seremos o homem de lata
Corram para as montanhas de neve
Seremos todos pedra de sal.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Eu sou muito cru
Tudo sempre igual
Já me cansei de mim
Preciso de mudança
Ou parar de escrever
E ir viver o raiar do dia
Talvez só escutar a brisa
Quem sabe me deitar
Outrora posso só calar
Mudar a direção do olhar
Comemorar as incertezas
Atravessar o claro vazio
Dançar os silêncios
Dizer não ao não
Ou simplesmente
Parar de fugir de mim.