domingo, 28 de junho de 2015


É tanta água, é tanto mar
pra tanta pressa de chegar
as ondas batendo, empurrando
uma hora me afogo, sem voltar
só as estrelas do mar à brilhar
É tanta nuvem, é tanto céu
pra imaginação viajar
cavalos, crianças e pássaros
uma hora eu fecho os olhos
deixo todas passar
É tanta poeira, tanto chão
pra meus pés caminhar
os carros andando, faróis a latejar
uma hora eu tropeço
as placas vão me direcionar
É tanta chuva que molha a terra
É tanto vidro pra guardar meu ar

sábado, 31 de janeiro de 2015


As vezes é correto atravessar os trilhos do trem
As vezes é melhor descer na próxima estação
As vezes é bom ficar debaixo da chuva torrencial
As vezes o bom é ter um cobertor quentinho
As vezes temos de olhar pelas frestas da vida
As vezes temos de deixar os olhos no branco
As vezes temos de criar raízes sólidas
As vezes cultivamos uma dúvida eterna
As vezes o chão a se pisar deve ser de pedra
As vezes devemos nos cortar com cacos de vidro
As vezes é preciso deixar as feridas cicatrizarem
Sempre é necessário deixar a porta aberta

sábado, 29 de novembro de 2014


Eu só preciso de um poema espremido
de água e alguns pedaços de pão
não quero nada mais necessário
nem cinzas e nem rosa em botão
nada que cabe em meus olhos
ou suporte a minha respiração
que transforme a noite
ou que pulse sobre minha mão
que ilumine a avenida e os becos
e que acabe me trazendo a razão
me dê só um papel dormido
que eu rego essa solidão.

domingo, 2 de novembro de 2014


Não há sangue no chão
os carros passam
e não ocupam a contramão
tudo ruido ao olhar pra trás
está vazio teu colchão
os olhos do gato
fechados pela escuridão
pedaços de bolo e velas
entre os tijolos da construção
nenhuma mão segurando o pão
sem mar, sem sal, sem gostar
ferindo a pele da solidão
linhas vazias pra configurar
vago pedaço de coração
sonho bolorento desfeito
moscas sorvendo a desilusão.

sábado, 23 de agosto de 2014


Eu rio,
rio de mim mesmo,
rio sem pensar
que o oceano
no qual navego,
é meu próprio
mar de desalento.

domingo, 3 de agosto de 2014


São dois olhos e a eternidade
é um rio e nenhum peixe
são várias montanhas e nenhum passo
é um rosto e um vazio.
São cinco sentidos e nenhuma alma
é um sol e um afogamento
são três estrelas e uma janela
é uma cama e todas as cápsulas.
São todos e uma perda
é um buraco e um verme
são mil sons e um eco
é um fim e ponto final.

terça-feira, 22 de julho de 2014


Eu não sabia que o fim era assim
Sinfonia sem sol em dó
Com o vento batendo na janela
O café frio na xícara de porcelana
E as abelhas voando baixo
Por sobre as flores de plástico
Eu não sabia que tudo terminava assim
Sobre um veludo dourado puído
Por entre as janelas fechadas
Sem cor e a brisa da manhã
E os pássaros cantando
A canção da que ninguém canta
Eu não sabia que a escuridão era assim
Tão redonda e vermelha
Com as lagartas enclausuradas
As estrelas mergulhando no oceano
E um cão latindo ao longe
Como se chamasse sua guia perdida.