sexta-feira, 4 de novembro de 2016


Tinha muita tinta e coragem
Andava em qualquer direção
Não levava muita coisa
E nem tinha seus pés no chão
Apenas ideias gestuais
Que coloriam as nuvens
E talvez colorissem também
A nossa imaginação.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016


Ouça meias verdades
Me conte umas mentiras
Me siga pelos espelhos
Brinque com meus pelos
Tranque-se dentro de você
Lamba meus seios
Diga que me ama
Mesmo que seja num frágil texto
Morda seus lábios
Me deixe no relento
Derrube todas as taças
Corte-me com o vento
Saia bem lento
Leve todos os pensamentos
Deixe três moedas
Vai que eu precise pagar
Pela falta do planejamento.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016


Estático
Parado
Morto
Uma breve pulsação
Não
Me enganei
Era só o vento
Soprando em meus ouvidos
Dizendo


Não volte

quinta-feira, 28 de julho de 2016


Me interesso por melodias engarrafadas
Adocicadas e misturadas a cicuta
Difíceis de engolir a seco
Que se tomam lentamente
Durante os invernos vindouros
Onde nenhuma criança as escutará
E nenhum leão as esquecerá.
Gosto do barulho dos metais se retorcendo
Tão delicadamente gentis
Sorvendo as nuvens pueris
Presas as minhas costas
Forjadas de pó e acetato
Em longos dias de deserto.
Amo os foguetes da vergonha
Presos no espaço entre as palavras
Onde a luz se desfaz
Tensa e fragilizada de futuro
E onde corre a noite sem fim.

domingo, 24 de julho de 2016


Ontem não voltei pra casa
Preferi seguir adiante
Com os bolsos e lapela vazios
Sem ao menos um trocado
Fazendo diversas paradas
Enterrando meus pés na lama
Queimando meu couro no tempo
Hoje eu retorno mais alto
Com os mesmos bolsos
Ainda sem nenhum trocado
Com meus pés cheios de calos
E meu corpo mais rachado
Amanhã vou embora de novo
Com os bolsos rachados
Trocando só meus sapatos
Com a pele alvejada
E um pouco mais pardo.

sábado, 23 de abril de 2016


Não há nada que eu possa citar
Tampouco que me faça escutar
Entre os tapetes da sala vazia
Só um beijo idiota de bar.
Meu corpo chora pulsares
E minhas mãos amassam
Um bilhete que ferre cortando,
Mas não consigo chorar.
Portas e janelas abertas
Escuro, só depois de dobrar
A esquina sussurrante
No caminho do mar.
As ondas batendo no peito
Nada para me refrescar
Sinos rachados no navio
Parado no meu olhar.
Para que vigiar estrelas
Se o tempo passou
E me distraio num relance
De uma falta de ar.

domingo, 3 de abril de 2016


Da última vez que me amei
Não era onze de setembro
Era mais pro fim de mês
Numa tarde de céu blasè
Estava sentado no sofá
Contando alguns trocados
Pro ônibus que eu iria pegar
Entre um ponto e outro
Desceu aquele amor
Fatigado pelos solavancos
Do coletivo desilusão.